A privatização do Anhembi pode dar ao centro a possibilidade de voltar a ser o principal polo de eventos de negócios em São Paulo e o lugar de atrações e entretenimento. Essa é a opinião de especialistas ouvidos pelo DCI, que citam, porém, os desafios com problemas de infraestrutura, o risco regulatório e os passivos gerados pelo complexo.

Segundo o professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie Paulo Dutra, embora o espaço fique próximo do Terminal Rodoviário Tietê, na zona Norte de São Paulo, o que poderia atrair mais pessoas de fora da cidade, o caminho da estação do metrô até o Anhembi não é tão convidativo.

“Mesmo de carro, no caminho até o centro de eventos nós nunca sabemos se vamos ser assaltados. Não tem segurança nas ruas. Além disso, há muitos pontos de prostituição nas vias ao entorno”, afirma Dutra. Ele explica que quando há grandes feiras ou eventos no local, devido às vias estreitas e não preparadas para a grande demanda, o trânsito fica quase inviável.

Para ele, essa falta de infraestrutura seria um dos principais empecilhos para manter o interesse das empresas em comprar o complexo. O professor explica que a gestão pública precisa se empenhar em reduzir os custos do investidor, ainda mais quando a medida também se torna um benefício público, porque senão o município seria obrigado a reduzir o valor de venda.

A privatização do complexo começou a ser estudada ainda na gestão municipal de João Doria que, na época, especulava que a venda do espaço mais o Autódromo de Interlagos poderia render R$ 7 bilhões aos cofres públicos.

O prefeito Bruno Covas manteve a viabilização dos processos em sua gestão. Neste ano, a prefeitura conseguiu resolver dois pontos que se considerava serem os principais entraves para a privatização dos espaços. O primeiro foi a quitação das dívidas de Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) e de Imposto sobre Serviço (ISS) em janeiro. O segundo foi a suspensão da liminar que limitava as construções e demolições no complexo. Agora, o leilão para a compra do Anhembi está marcada para o mês de junho.

O sócio do escritório de advocacia Chamon Santana Advogados Ricardo Chamon considera que a insegurança dos investidores, principalmente das empresas estrangeiras, para comprar um espaço como o Anhembi está muito atrelada à incerteza quanto ao risco regulatório.

“Se houver qualquer risco de contestação em qualquer processo da privatização, como questões ambientais e de aproveitamento de solo, o investidor vai se afastar. O sistema brasileiro é muito imprevisível. Por isso, é preciso ter a certeza de que todas as autoridades envolvidas e o Ministério Público, estejam de acordo com o projeto”, diz.

Para o sócio fundador da SV Law, Rodrigo Valverde, entre os entraves na privatização do Anhembi estão os passivos, materializados ou não, que podem já estar na casa dos milhões. Entretanto, na visão do especialista, é muito positivo que o complexo vá para a iniciativa privada. “No geral, os bens públicos quando administrados pela gestão pública são explorados de formas ineficientes. Como a iniciativa privada precisa ter sempre bons resultados, ela busca a melhor maneira de explorar o local, entregando bons serviços”, diz. Ele considera que a atual situação política brasileira também está ajudando a aumentar a confiança de investidores e empresas.

Fonte: DCI